O apóstolo Pedro incentiva em sua primeira carta (4:10): “Sejam bons administradores dos diferentes dons que receberam de Deus”. A escritora Ellen White (Testemunhos, vol. 3, cap. 33) observa: “Todo homem é um mordomo de Deus. A cada um confiou o Mestre Seus recursos... Disse Cristo: ‘Negociai até que Eu venha’ (Lucas 19:13). ‘Presta contas da tua mordomia’ (Lucas 16:2)”. A palavra mordomo significa administrador de uma casa.
Ellen White (Testemunhos Seletos, vol. 2, cap. 78) acrescenta: “Os bens do Senhor devem ser manejados com fidelidade. O Senhor tem confiado aos homens vida, saúde e as faculdades de raciocínio... Muitos estão gastando o dinheiro de seu Senhor em assim chamados prazeres dissolutos... deixando de levar a cruz de Jesus”.
A Fidelidade como Base
Analisemos as qualidades de uma boa administração sob a
perspectiva de José. A primeira característica essencial é a fidelidade: o
compromisso irrevogável de cumprir acordos, zelar pela palavra empenhada e
fazer o que é correto segundo os padrões bíblicos, mesmo contra a correnteza.Até os dezessete anos, José levava uma vida tranquila e privilegiada em sua família. De repente, tudo mudou. Vendido como escravo pelos irmãos, foi parar no Egito, na casa de um oficial de alta patente. Mesmo em situação desfavorável, manteve os princípios aprendidos no lar. A fidelidade testa-se nos momentos de crise: seja obedecendo aos mandamentos de Deus quando a maioria os despreza, devolvendo o dízimo apesar do salário apertado ou preservando a integridade diante de propostas tentadoras.
O capítulo 39, verso 2, de Gênesis relata que “o Senhor estava com José”. O jovem, contudo, não enxergava a mão divina de imediato. Só compreendemos os propósitos de Deus ao contemplar o desfecho da história. Sem palestras motivacionais de um coach nem garantias de sucesso durante a viagem como prisioneiro, José entendeu que a fidelidade não se compra; ela exige decisão e postura.
O cristão devolve o dízimo como reconhecimento da soberania do Criador, porque sabe que é apenas um mordomo. A pessoa fiel a Deus nos dízimos não busca barganhar favores. A teologia da prosperidade reduz a graça divina a um balcão de negócios.
A matemática financeira exige cautela: após separar os 10% para a obra de Deus, restam 90% para o sustento familiar. Gerir menos recursos requer sabedoria. Gênesis 39:5 aponta que a bênção divina alcançava tudo ao redor de José. Perceber a providência divina na saúde, no trabalho e na preservação da vida torna o dízimo um ato natural de reconhecimento.
Os 90% restantes pertencem a Deus, mas Ele permite administrá-los com prioridades orientadas pela obediência. É incompatível com a mordomia cristã gastar recursos divinos com vícios, alimentos inadequados ou conteúdos culturais nocivos. Como afirma Ellen White (Testemunhos, vol. 9, cap. 30): “Cada cristão é um mordomo de Deus... Requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel”.
Eficiência e Gestão Prática
A segunda qualidade de uma boa administração é a eficiência.
Jesus ilustrou essa verdade na parábola dos talentos, distribuídos conforme a
capacidade de cada servo (Mateus 25). A regra básica determina que grandes
empreendimentos exigem excelência nas pequenas tarefas cotidianas. O apóstolo
Paulo exorta Timóteo (1Tm 3:12) a gerir bem a própria casa antes de assumir
responsabilidades maiores.Na adolescência, José já prestava contas ao pai sobre as atividades no campo (Gênesis 37:14). Ele planejava, estabelecia prioridades e não compactuava com o erro, ao ponto de ser considerado indesejável pelos irmãos quando erravam. Além disso, destacava-se na gestão de conflitos por meio do diálogo.
Nem sempre é fácil administrar o orçamento doméstico. Os interesses, por vezes, são antagônicos entre os membros do núcleo familiar. O diálogo permanece como a melhor ferramenta para resolver impasses. No livro Esperança para a Família (Willie e Elaine Oliver, CPB, 2018, p. 44), tratando da intimidade conjugal, destaca-se que “isso é muito mais que nudez física. Em realidade, diz respeito a um relacionamento em que há total transparência emocional, financeira, intelectual e espiritual”. A intimidade financeira é pré-requisito para o sucesso no orçamento doméstico. Esse quesito é desafiador para quem administra poucos recursos.
Superando a Adversidade
Administrar com retidão atrai oposição. Vendido pelos
irmãos, José cresceu profissionalmente no Egito graças à sua operosidade. Como
destaca a escritora Ellen White (Patriarcas e Profetas, cap. 20): “A assinalada
prosperidade que acompanhava todas as coisas postas aos cuidados de José não
era resultado de um milagre direto; mas sim a sua operosidade, zelo e energia
eram coroados pela bênção divina. José atribuía seu êxito ao favor de Deus, e
mesmo seu senhor idólatra aceitava isso como o segredo de sua prosperidade
sem-par. Sem um esforço perseverante e bem dirigido jamais poderia, entretanto,
haver conseguido o êxito. Deus era glorificado pela fidelidade de Seu servo”.Mesmo vivendo de forma íntegra, José foi lançado injustamente na prisão, onde o sistema jurídico da época ignorava garantias fundamentais como a ampla defesa e o contraditório. Sua capacidade de superação exigiu profunda paciência. Na cela, ele cultivou flexibilidade, cuidou dos companheiros de cárcere e demonstrou genuína preocupação com o próximo. Quando o copeiro-chefe esqueceu de interceder por ele, José evitou o amargor da vingança. Valores sólidos sustentam o caráter nos momentos de injustiça.
Uma boa administração exige resiliência diante das adversidades. A trajetória de José exemplifica essa jornada: ele superou a oposição hostil dos irmãos, resistiu à tentação no ambiente de trabalho e suportou dois anos de cárcere indevido.
Obstáculos e falta de reconhecimento
testam o caráter humano.
Quando a situação se inverte e o oprimido alcança o
poder, a verdadeira personalidade se revela. A vingança nunca constitui uma
resposta aceitável. O exercício da autoridade ou da riqueza exige integridade,
provando que o poder deve servir à justiça e não ao rancor. Vi, certa vez, o pronunciamento do Senador Jefferson Péres sobre a capacidade do poder de corromper os seres humanos. A Senadora Heloísa Helena pediu a palavra para dizer que o poder revela o verdadeiro caráter das pessoas (5 de dezembro de 2005). No caso de José, o poder revelou quem de fato ele era.
José era um sonhador. Todo vencedor cultiva grandes visões. Ao compartilhar suas aspirações com os familiares, ele desenvolveu a capacidade de pensar, interagir e comunicar-se, embora nem sempre fosse compreendido por pais e irmãos. Os pais devem incentivar os sonhos dos filhos, pois o estímulo pavimenta o caminho das grandes conquistas. Afinal, o sucesso de José como administrador fundamentou-se em três pilares: gerir com excelência as pequenas tarefas cotidianas, solucionar conflitos de forma pacífica e acreditar em seus ideais. Frutifique onde você estiver plantado e execute com perfeição tudo o que vier às suas mãos.
De Administrador Júnior a Sênior
Quando a vida exige uma guinada radical, Deus pode agir por
meio de intervenções extraordinárias. Foi assim quando o Criador concedeu um
sonho a Faraó, unindo dois visionários. Convocado para interpretar a visão do
líder máximo da nação, José demonstrou preparo imediato. A sorte revelou-se, na
verdade, como o encontro da oportunidade com a qualificação profissional. Além
de identificar o problema com rapidez, o jovem estruturou um plano estratégico
de curto, médio e longo prazo para catorze anos, provando sua profunda visão
administrativa.Nomeado assessor especial no gabinete presidencial, José confirmou sua competência ao longo dos anos. Ele soube ajustar rotas, reorganizar prazos e rever resultados com agilidade. Essa capacidade de gestão eficiente destacou-se nos momentos de crise, abrangendo desde desequilíbrios econômicos e escassez até períodos de fome e calamidades públicas.
Ellen White (Testemunhos Seletos, vol. 13) acrescenta: “Deus se desgosta com a maneira negligente, frouxa em que muitos dos que professam ser seu povo dirigem seus negócios mundanos. Parecem ter perdido todo o senso de que a propriedade que estão usando pertence a Deus, e lhe devem prestar contas de sua mordomia. Alguns têm os negócios seculares em total confusão”.
O Propósito dos Sonhos
As crianças são naturalmente sonhadoras. Os adultos perdem a
capacidade de sonhar no decorrer da vida por causa de sofrimentos, angústias ou
doenças. O pecado também extingue essa capacidade. O mais importante consiste
em descobrir o sonho de Deus para essa existência. Se o sonho é a salvação,
deve-se cultivar a semente plantada pelo Senhor no coração. Acreditar nesse
sonho transforma a maneira de pensar e agir. Que sonho você cultiva?As mudanças exigem adaptações contínuas às novas circunstâncias, pois isso faz parte do processo. Quem viveu da mesma forma nos últimos dez anos apenas repetiu o mesmo ano dez vezes. Quem busca resultados diferentes na administração da vida precisa adotar atitudes novas, sem medo de sonhar e enfrentar obstáculos. Os obstáculos existem para ser vencidos e promovem o aperfeiçoamento. Levantar a cabeça e lutar constitui um imperativo. Evite murmurar ou contar problemas aos outros: parte das pessoas ignora os problemas alheios, enquanto outra parte alegra-se com eles. A pergunta central resume-se a onde se quer chegar e qual preço se está disposto a pagar.
Fidelidade e eficiência formam os princípios fundamentais para o sucesso de uma boa administração. O percurso exige esforço, mas a chegada compensa cada desafio.