Interesses envolvidos
Em guerras não há vencedores. Os franceses perderam 20% de seus homens em idade militar, quase uma geração inteira (Hobsbawm, 1998, p. 33).
O nacionalismo sérvio e as tensões nos Bálcãs contribuíram para o início da Primeira Guerra Mundial. As disputas étnicas e territoriais, agravadas pelas rivalidades entre os impérios europeus, ampliaram a instabilidade da região.
Jean-Baptiste Duroselle destaca a crise política que antecedeu o conflito:
“Precisamente a 10 de Junho de 1903, o rei da Sérvia, Alexandre Obernovitch, pró-austríaco, é assassinado por oficiais sérvios, membros da Sociedade secreta ultranacionalista ‘Mão-Negra’. E substituídos por Pedro I Karageorgevicth, antigo aluno de Saint-Cyr, pró-francês, pró-russo, anti-austríaco... com efeito, vai assistir de 1905 a 1914, a cinco crises cada vez mais graves e que pertencem a dois tipos: crises franco-alemãs de origem colonial; crises austro-russas de origem balcânica” (Duroselle, 1976, p. 54).
As causas da Primeira Guerra Mundial envolveram disputas territoriais, rivalidades econômicas e competição pelo poder internacional. Embora o conflito não tenha sido motivado por uma única ideologia ou por um objetivo isolado, as potências envolvidas buscavam preservar ou ampliar sua influência política e econômica. A guerra também ofereceu às nações a oportunidade de resolver disputas que se arrastavam desde o século XIX. Nesse contexto, o Tratado de Versalhes tornou-se um instrumento de reorganização da ordem europeia e de afirmação dos interesses dos vencedores.
O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, desempenhou papel central nas negociações de paz. Ele permaneceu na Europa por vários meses e defendeu um programa de paz conhecido como os Quatorze Pontos, apresentado em 8 de janeiro de 1918. Duroselle explica a importância dessa iniciativa:
“A tática adotada consistia em pedir armistício não a todos os aliados, mas ao presidente Wilson, chefe da potência ‘associada’. Ele foi o único que publicou um programa de paz relativamente preciso (os 14 pontos de 9 de janeiro de 1918)” (Duroselle, 1976, p. 78).
A França, representada pelo primeiro-ministro Georges Clemenceau, defendeu condições rigorosas para a Alemanha, entre elas a devolução da Alsácia-Lorena, região anexada pelo Império Alemão em 1871. As divergências entre os vencedores revelavam interesses distintos: enquanto a França priorizava sua segurança diante da Alemanha, a Grã-Bretanha também considerava os efeitos das condições de paz sobre o equilíbrio europeu e a retomada do comércio.
O Tratado de Versalhes foi o mais conhecido dos acordos de paz do pós-guerra, mas não foi o único. Entre 1919 e 1920, os vencedores firmaram outros tratados com os antigos aliados da Alemanha: Saint-Germain com a Áustria, Neuilly com a Bulgária, Trianon com a Hungria e Sèvres com o Império Otomano (Rémond, 1999, p. 30). Esses acordos redefiniram fronteiras e distribuíram territórios. No Oriente Médio, antigos territórios otomanos passaram a ser administrados por meio de mandatos da Liga das Nações, sob controle britânico ou francês. A Palestina e o Iraque ficaram sob mandato britânico; a Síria e o Líbano, sob mandato francês. A formação dos novos Estados e a definição de suas fronteiras atenderam, em grande medida, aos interesses estratégicos das potências vencedoras.
Eric Hobsbawm questiona por que as principais potências trataram a Primeira Guerra Mundial como um conflito em que só admitiam a vitória total ou a derrota completa: “Por que, então, a Primeira Guerra Mundial foi travada pelas principais potências dos dois lados como em tudo ou nada, ou seja, como uma guerra que só podia ser vencida por inteiro ou perdida por inteiro?” (Hobsbawm, 1998, p. 37).
A rivalidade política internacional estava ligada ao crescimento econômico e à disputa por mercados e áreas de influência. A Alemanha, potência industrial em rápida expansão, competia com a Grã-Bretanha pela supremacia econômica e naval. A França, por sua vez, buscava recuperar a Alsácia-Lorena e conter o poder alemão. As disputas coloniais, as alianças militares e as tensões nos Bálcãs agravaram esse cenário. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, em junho de 1914, desencadeou uma crise que transformou essas rivalidades em uma guerra de grandes proporções.
Durante o conflito, as potências beligerantes passaram a considerar a derrota do adversário uma condição para garantir seus próprios objetivos. Essa lógica dificultou uma solução negociada e influenciou as decisões tomadas após o armistício. No caso da Alemanha, os vencedores impuseram perdas territoriais, restrições militares e obrigações financeiras. Ao mesmo tempo, as condições de paz precisavam conciliar os interesses dos países vencedores e preservar alguma estabilidade econômica na Europa.
O acordo de paz refletiu, portanto, uma tensão entre punição e reconstrução. A França, que temia uma nova agressão alemã, defendia garantias rigorosas de segurança. A Grã-Bretanha também desejava limitar o poder alemão, mas considerava os efeitos de uma Alemanha economicamente enfraquecida sobre o comércio europeu. Essas diferenças influenciaram as negociações e revelaram que os vencedores não compartilhavam uma única visão para a ordem internacional do pós-guerra.
A Entente Cordiale, firmada entre França e Grã-Bretanha em 1904, reduziu as divergências coloniais entre os dois países e contribuiu para sua aproximação diplomática. A relação entre França e Rússia, por sua vez, decorria de uma aliança anterior, firmada na década de 1890. Para René Rémond, a expansão da economia alemã e a busca por mercados externos intensificaram a rivalidade com a França e a Grã-Bretanha (Rémond, 1999, p. 17).
Novas fronteiras
Após a Primeira Guerra Mundial, o mapa político da Europa mudou profundamente. A derrota das Potências Centrais e a dissolução dos grandes impérios alteraram as fronteiras e favoreceram o surgimento de novos Estados. O Império Austro-Húngaro foi desmembrado, e a Áustria e a Hungria passaram a existir como Estados separados. A Tchecoslováquia e o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, posteriormente denominado Iugoslávia, também surgiram nesse contexto. A Albânia, porém, havia declarado sua independência em 1912, antes do início da guerra.
A queda dos impérios Russo, Austro-Húngaro e Otomano abriu espaço para novas disputas políticas, territoriais e étnicas. As fronteiras estabelecidas após a guerra nem sempre corresponderam às aspirações dos diferentes povos que habitavam essas regiões. As potências vencedoras procuraram conciliar suas próprias prioridades estratégicas com a reorganização da ordem internacional, mas as decisões tomadas em muitos casos alimentaram novas tensões.
No antigo território otomano, a reorganização seguiu um processo distinto daquele aplicado à Europa. A Liga das Nações instituiu o sistema de mandatos, pelo qual a administração de determinados territórios ficou sob responsabilidade de potências estrangeiras. A Grã-Bretanha recebeu os mandatos da Palestina, da Transjordânia e do Iraque; a França, os da Síria e do Líbano. Embora o sistema previsse uma tutela internacional, ele também refletia os interesses estratégicos das potências administradoras.
Os acordos de paz procuraram reorganizar a ordem internacional e reduzir o risco de novos conflitos. Nesse contexto, foi criada a Liga das Nações, com o objetivo de promover a cooperação entre os países e solucionar controvérsias por meios diplomáticos. A instituição, contudo, não conseguiu impedir a escalada das tensões internacionais que culminou na Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939. Após esse fracasso, a Organização das Nações Unidas, criada em 1945, assumiu a função de principal organismo internacional voltado à manutenção da paz e da segurança.
O Tratado de Versalhes impôs severas restrições à Alemanha. O país perdeu territórios europeus e suas colônias ultramarinas foram colocadas sob controle das potências vencedoras, por meio do sistema de mandatos. O Exército alemão foi limitado a 100 mil homens, o serviço militar obrigatório foi abolido e a aviação militar foi proibida. A Marinha também sofreu fortes restrições quanto ao efetivo e aos tipos de embarcações permitidos. As cláusulas militares refletiam, sobretudo, a preocupação francesa com a segurança diante de uma possível recuperação do poder alemão (Thalmann, 1988, p. 33).
A imposição dessas condições alimentou o ressentimento alemão e tornou o tratado um dos focos de contestação política no período entre guerras. A paz de 1919 não eliminou as rivalidades entre as potências nem resolveu as tensões territoriais e nacionais que atravessavam a Europa. Como observa Eric Hobsbawm: “Não era necessário entrar em detalhes da história entre guerras para ver que o acordo de Versalhes não podia ser a base de uma paz estável. Estava condenado desde o início, e, portanto, outra guerra era praticamente certa” (Hobsbawm, 1998, p. 42).