Para quem é jovem e deseja um mundo mais justo, essa busca é legítima e merece reflexão. A juventude cristã é chamada a olhar para uma sociedade na qual a dignidade humana seja respeitada. A Bíblia também ensina que a busca pela justiça precisa caminhar ao lado da verdade, da responsabilidade e da liberdade.
Para isso, convém olhar para as ideias políticas com serenidade. O cristão tem grande responsabilidade na eleição dos governantes. Antes de escolher uma posição, é necessário perguntar: a ideia desse candidato é compatível com os princípios ensinados por Cristo? O que a história revela sobre sua posição?
A Bíblia reconhece a propriedade privada e condena o roubo e a cobiça dos bens alheios. O oitavo mandamento é direto: “Não furtarás” (Êxodo 20:15). O décimo também protege aquilo que pertence ao próximo. Ao mesmo tempo, as Escrituras ensinam generosidade e cuidado com os necessitados. O cristianismo, portanto, apresenta duas responsabilidades que precisam caminhar juntas: respeitar aquilo que pertence ao outro e socorrer quem precisa de ajuda.
O trabalho ocupa um lugar central na visão bíblica. Paulo advertiu os cristãos de Tessalônica: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Tessalonicenses 3:10). A passagem condena a ociosidade voluntária e exige o esforço individual. A solidariedade cristã requer uma postura ativa da pessoa diante da própria existência.
Esse princípio também ajuda a refletir sobre a liberdade econômica. A capacidade de trabalhar, empreender, produzir e administrar os próprios recursos está relacionada à responsabilidade pessoal. A Constituição brasileira também reconhece a importância da livre iniciativa, da propriedade privada, do trabalho e da redução das desigualdades sociais. O Estado possui responsabilidades importantes diante da pobreza e das desigualdades, mas a ação estatal precisa ser examinada com cuidado. Uma sociedade justa precisa proteger os vulneráveis sem eliminar a liberdade, a iniciativa e a responsabilidade das pessoas de promoverem o próprio sustento.
Esse ponto merece reflexão quando analisamos ideias socialistas ou comunistas. Essas correntes apresentam propostas para a organização econômica e social. Defendem ampla participação do Estado na economia; especialmente as linhas marxistas e comunistas, propõem a extinção da propriedade privada dos meios de produção e uma transformação radical da sociedade.
O comunismo revolucionário produziu experiências históricas que precisam ser conhecidas. A União Soviética, a China de Mao Tsé Tung e o Camboja sob o Khmer Vermelho estiveram associados a regimes autoritários, perseguições políticas, restrições severas às liberdades e mortes em grande escala, apenas por discordarem politicamente. Também houve perseguição religiosa em diferentes períodos e países. Conhecer essa história permite compreender que determinadas ideias, quando combinadas com concentração extrema de poder, podem produzir consequências terríveis. É inconcebível que o Estado, ou líderes políticos perseguem, torturam, matam ou exilam seus concidadãos. Os regimes totalitários extremam essas práticas, sufocam a liberdade de expressão e eliminam a oposição política.
Karl Marx também formulou uma crítica severa à religião, resumida na conhecida expressão de que ela seria o “ópio do povo”. É óbvio que a fé cristã não depende do Estado, de um partido ou de um sistema econômico. A Igreja pertence a Cristo. Mas o cristão deve conhecer essa crítica marxista para rebatê-la com firmeza.
A mesma prudência vale para as questões morais. Para o cristão, a proteção da vida, a família, a educação dos filhos, a liberdade religiosa e a dignidade humana não são apenas bandeiras partidárias. São temas que envolvem convicções morais profundas. Por isso, precisam ser examinados à luz das Escrituras e também das propostas concretas de cada candidato e partido.
Um cristão pode ter uma posição política, mas precisa saber por que a possui. Rejeite opiniões prontas das redes sociais. É necessário conhecer os argumentos, verificar os fatos e comparar as propostas com os princípios que orientam sua consciência, partindo do princípio de que a consciência cristã é norteada pela Bíblia. Decisões, alianças, propostas e posicionamentos que entrem em conflito com suas convicções cristãs devem ser examinados com a mesma liberdade. A fidelidade a Cristo exige independência em relação a qualquer partido.
Essa independência é importante porque nenhum político merece ocupar, na consciência de um cristão, o lugar que pertence a Deus. Um cristão pode admirar determinadas propostas de um governante, discordar de outras, reconhecer seus acertos e apontar seus erros. Evite transformar uma pessoa em símbolo de salvação nacional. A Bíblia já advertia contra essa tendência. Os cristãos de Corinto começaram a criar grupos em torno de líderes humanos: “Eu sou de Paulo”, “eu, de Apolo” e “eu, de Cefas”. Paulo respondeu perguntando: “Acaso Cristo está dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).
A advertência continua atual. Quando um líder político passa a ser tratado como alguém infalível, a política deixa de ser analisada racionalmente. O eleitor passa a defender qualquer atitude do seu líder, mesmo quando ela contradiz princípios que anteriormente considerava importantes. Lyle H. Rossiter, em A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Política, Ed. Vide Editorial, procura interpretar determinados comportamentos políticos a partir da psicologia. Para ele a esquerda radical opera como doença mental coletiva.
O cristão precisa conservar sua liberdade de consciência. Pode votar em determinado candidato, apoiar determinado partido ou defender determinada proposta. Mas sua lealdade maior permanece com Cristo. Quando um líder político determina que seus seguidores defendam tudo aquilo que ele faz, o cristão deve parar e pensar. Quando um político é apresentado como a única esperança para o país, também deve haver cautela.
Por isso, antes de formar uma opinião sobre qualquer candidato, procure suas propostas originais, seu histórico de decisões e votações, suas declarações públicas e os resultados de suas administrações. Compare aquilo que ele promete com aquilo que efetivamente realizou. Examine também suas alianças políticas e as consequências de suas decisões. Faça isso com todos.
Aplique o mesmo critério para o candidato de sua preferência e para o seu adversário político. Se uma determinada conduta é errada quando praticada por um político da esquerda, ela também deve ser considerada errada quando praticada por alguém da direita. A verdade não muda conforme a cor partidária.
As redes sociais tornam esse exercício ainda mais importante. Seus algoritmos podem criar ambientes nos quais ouvimos apenas aquilo que confirma nossas próprias convicções. Assim surgem as bolhas políticas, nas quais cada grupo acredita possuir toda a verdade e enxerga o outro como ignorante ou mal-intencionado. Romper essa bolha exige coragem.
Leia autores com os quais você concorda. Depois leia aqueles de quem discorda. Conheça os argumentos da esquerda e da direita. Estude o socialismo, o liberalismo, o conservadorismo e outras correntes políticas. Conheça a história dos governos que adotaram essas ideias. Examine também os erros cometidos por governos que se apresentaram como defensores da liberdade, da democracia ou dos valores cristãos. E, acima de tudo, compare tudo isso com as Escrituras.
Os jovens têm diante de si uma longa vida para formar suas convicções. Evite transformar um político em herói ou um adversário em inimigo. O pensamento crítico exige disposição para reconhecer quando o outro tem razão e quando aqueles que admiramos estão errados.
A Bíblia apresenta uma orientação simples e profunda: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21). Talvez esse seja um dos melhores princípios para quem começa a participar da vida política. Examine. Questione. Estude. Compare. Ore. Depois, forme sua própria consciência.
Nas últimas duas décadas, o Brasil passou por períodos de baixo crescimento, recessão, aumento do endividamento e graves problemas fiscais, especialmente durante a crise econômica de 2014 a 2016, com o mesmo grupo político do Partido dos Trabalhadores. Retrocedeu na economia. A década de 2011–2020 registrou crescimento médio anual de apenas 0,3%, o pior desempenho entre as décadas dos últimos 120 anos, segundo levantamentos baseados em dados do IPEA e do IBGE. O desemprego bateu o recorde de 13,5%. A dívida pública chegou a 89% do PIB. Nos anos de 2015 e 2016 o país enfrentou uma recessão profunda com retração no PIB e descontrole das contas públicas. O governo do PT promoveu uma política assistencialista de manutenção do pobre na pobreza. Um estudo do IPEA publicado em 2013 associou grande parte da desigualdade de renda a ações do governo. Na educação, o Brasil ocupa a 71ª posição em matemática no ranking global do PISA de 2025 de um total de 89 países. Dados da OMS de 2016 colocaram o Brasil como o nono país em número de homicídios. Foram 31 pessoas assassinadas a cada 100 mil habitantes, num total de 62.517 homicídios.
Quando imaginávamos estar no fundo do poço diante de tantos problemas, surgiram episódios ainda mais preocupantes: decisões e medidas de diferentes instituições passaram a provocar intenso debate sobre os limites da liberdade de expressão, da atuação judicial e da responsabilização de opositores e agentes políticos. O Inquérito 4.781, as decisões sobre parlamentares e partidos políticos, as restrições a perfis em redes sociais e, posteriormente, a suspensão do X no Brasil tornaram esse debate ainda mais intenso. A criação e a condução do Inquérito 4.781 provocaram intenso debate jurídico sobre os limites da atuação do STF, pois a Corte assumiu a condução direta de investigações.
Esse conjunto de problemas também precisa ser analisado à luz das decisões tomadas pelos governos e pelas instituições responsáveis pela condução do país. Tudo isso foi resultado da mente de quem governava a nação. A liderança política esteve no centro de grandes casos de corrupção e recebeu condenações em processos da Operação Lava Jato em inúmeros episódios que contribuíram para banalizar a corrupção na percepção de parte da sociedade. Ficamos anestesiados diante de tantos escândalos e, pouco a pouco, perdemos a capacidade de nos indignar, como se o absurdo tivesse se tornado normal.
O cristão não precisa entregar sua consciência a um partido, a uma ideologia ou a um líder político. Sua consciência pertence a Deus. A política passa. Os governos passam. Os partidos passam. Os líderes passam. Este governo também vai passar. Cristo permanece.