03 outubro 2026

O passado, o caráter e a graça de Deus

Li o capítulo 11 do livro Testemunhos Sobre Conduta Sexual, Adultério e Divórcio, de Ellen White. Logo no início, uma advertência me chamou a atenção: “O que um homem é, tem maior influência do que aquilo que ele diz. A vida serena, coerente e piedosa é uma carta viva, ‘conhecida e lida por todos os homens’. 2 Coríntios 3:2. Um homem pode falar e escrever como um anjo, mas seus atos podem assemelhar-se aos de um demônio".

Parei a leitura. Meditei por vários dias. Talvez aquele texto servisse para mim. A escritora destaca que o verdadeiro caráter não se constrói por aparências, mas irradia do interior. “Não é algo a ser esculpido pelo lado de fora, ou algo que se possa vestir”.
Cerca de quinze dias depois, assisti a uma pregação de Izabella Policena no YouTube. No meio do sermão, ela apresentou outra passagem de Ellen White, extraída do livro Primeiros Escritos, do capítulo “A Ordem Evangélica”, p. 119: “Deus não confiará o cuidado do Seu precioso rebanho a homens cuja mente e discernimento tenham sido enfraquecidos por erros anteriores que acariciavam … e que, por sua conduta quando nesses erros, infelicitaram-se a si mesmos e levaram opróbrio sobre a causa da verdade. Embora se sintam agora livres de erro e capacitados para ir e ensinar esta última mensagem, Deus não os aceitará. Ele não confiará almas preciosas aos seus cuidados; pois o seu juízo ficou pervertido enquanto estiveram no erro, e está agora debilitado. Os servos de Deus que ensinam a verdade devem ser homens sensatos”.
A primeira leitura me fez examinar meu íntimo. A segunda trouxe uma questão ainda mais difícil: até que ponto o passado pode comprometer o ministério religioso?
Naqueles dias, eu havia acabado de escrever sobre a restauração da mente e a fidelidade no casamento. Ainda tentava assimilar a lição anterior quando o novo texto me levou a avaliar minha própria trajetória. Pensei que eu poderia ser aquele homem de palavras de anjo e atitudes de demônio. Foi como se a pregadora abrisse o inventário da minha vida e me obrigasse a rever antigas lembranças. Então, quase ouvi uma voz nítida: meu passado me desqualificava para o trabalho do Mestre, embora eu fosse, naquele momento, uma pessoa esforçada e bem-intencionada.
Apesar da advertência sobre o caráter e a aptidão para o serviço, o futuro da pessoa continua aberto à transformação. O arrependimento, a nova postura e a graça divina também fazem parte da experiência cristã. Ainda assim, o perdão não qualifica a pessoa automaticamente para qualquer função religiosa. Essa distinção me fez refletir sobre a seriedade do alerta e, ao mesmo tempo, sobre os limites do meu próprio julgamento.
Martinho Lutero declarou: “Quando olho para mim não vejo como ser salvo; quando olho para Cristo não tem como me perder”. Essa frase expressa o conflito que eu vivia diante dos meus erros. Contudo, a graça divina supera a indignidade humana. O apóstolo Paulo enfrentou uma situação semelhante. Ele perseguiu a igreja e reconheceu a gravidade de seu pecado. Apesar disso, encontrou esperança nos méritos do Salvador. Em 1 Timóteo 1:15, escreveu: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal."
A salvação repousa no sacrifício de Cristo. Sua graça não torna o erro irrelevante, nem dispensa o arrependimento e a mudança de conduta. Contudo, oferece alento ao pecador que reconhece sua condição e busca uma vida renovada. O passado expõe minhas falhas, mas não define meu futuro. Em Cristo, encontro perdão, esperança e a possibilidade de um recomeço. A graça de Deus restaura a mente e muda o caráter.