20 julho 2020

Testemunha ou Advogado

Quando esteve conosco, Jesus Cristo realizou muitos milagres. Ele provocou a razão, emocionou pessoas, deixou ensinamentos e esclareceu conceitos sobre justiça, verdade e amor. Depois, pediu aos discípulos que fossem testemunhas desses fatos.

Testemunhar de Cristo consiste em contar o bem que Ele realizou na vida da pessoa convertida. Significa compartilhar a cura, a graça, a misericórdia e o perdão concedidos por Deus no passado e no presente, além da esperança oferecida para o futuro. Testemunhar é uma oportunidade oferecida por Deus. Trata-se, sobretudo, de um privilégio: cooperar com Ele no resgate da ovelha perdida. Esse testemunho demonstra que o crente conhece Jesus pessoalmente, pois mantém comunhão com Ele.

Uma coisa é relatar, em teoria, o que Jesus fez. Outra, bem diferente e muito mais impactante, é ouvir o próprio beneficiário do milagre contar sua experiência. As histórias de resgate são diversas. O poder de Deus alcança pessoas que, aos olhos humanos, parecem improváveis, como o apóstolo Paulo, que viajava para Damasco com a intenção de perseguir os cristãos. O encontro de Paulo com Cristo foi sobrenatural. Deus, porém, nem sempre age de forma dramática. É mais comum observar histórias marcadas pelo reconhecimento da graça do Pai, a compreensão de seu imenso amor e a gratidão pelo perdão dos pecados.

Na igreja primitiva, cada membro tinha uma história para contar. Os irmãos Tiago e João tiveram o temperamento explosivo transformado pelo amor. Pedro deixou a condição de rude pescador e se tornou um grande pregador e líder da igreja. Tomé poderia contar como sua dúvida deu lugar à fé. Paulo, antigo perseguidor dos cristãos, falava sobre seu encontro com Cristo na estrada de Damasco. Afinal, a testemunha relata o que viu, ouviu, conheceu ou experimentou.

Certa vez, Jesus foi à região de Decápolis, às margens do Mar da Galileia. Ao descer do barco, encontrou um homem agressivo, que se automutilava e vagava pelos cemitérios durante a madrugada. Ele vivia sob terrível opressão espiritual. Ao encontrar Jesus, teve a vida completamente transformada. Depois de sua restauração física, emocional e espiritual, o jovem pediu para seguir o Mestre. Jesus, porém, ordenou que ele voltasse para casa e contasse o que Deus havia feito por ele. Aquele homem era a pessoa mais indicada para falar do amor libertador do Pai Celeste. Tanto Paulo quanto o homem restaurado em Decápolis tinham histórias marcantes para compartilhar.

Ellen White escreveu: “Deus poderia ter realizado seu plano de salvar pecadores sem o nosso auxílio; mas, para desenvolvermos caráter semelhante ao de Cristo, precisamos partilhar de sua obra” (O Desejado de todas as nações, p. 142). Jesus também ensinou à mulher samaritana, junto ao poço de Jacó, sobre a água viva. Quem recebe essa água tem em si uma fonte que transborda. O testemunho pessoal nasce dessa experiência com Cristo e constitui uma forma de cooperar com os planos divinos. Além disso, testemunhar favorece o crescimento espiritual, aproxima o pecador do coração de Deus, expressa obediência e revela amor ao próximo.

Por essa razão, testemunhar vai além de convencer alguém das doutrinas da igreja. Deus não precisa de advogados. O testemunho mais eficaz é uma vida transformada. Para testemunhar, basta ter experimentado o amor de Deus. Isso não diminui o valor dos dons como a formação acadêmica, o conhecimento ou a eloquência, desde que empregados para a glória de Deus.

Diariamente, Deus oferece oportunidades de compartilhar o amor, a misericórdia, a paciência e o perdão recebidos Dele. Precisamos, portanto, olhar para as pessoas com as lentes do céu. O foco não deve estar apenas no que elas são hoje, mas no que poderão se tornar com Cristo. Nas palavras de Ellen White, “Ninguém caiu tão fundo, nem é tão mau, que não possa encontrar libertação em Cristo” (O Desejado de todas as nações, p. 258).

A função da testemunha é levar as pessoas a Cristo. Nos evangelhos, amigos e parentes conduziam os necessitados até o Mestre. Lucas relata um belo exemplo de fé. Quatro amigos levaram um paralítico até Jesus e, diante da dificuldade de entrar na casa, abriram o telhado e desceram o enfermo em sua maca para que Jesus o curasse.

A primeira pessoa com quem André compartilhou as boas-novas foi seu próprio irmão, Pedro. Talvez o testemunho mais importante aconteça dentro de casa. Ele se manifesta por meio da amizade, do carinho, do amor, da compreensão e do respeito pelos familiares. Quando o relacionamento com o cônjuge, os filhos ou os pais enfrenta dificuldades, um dos maiores testemunhos em favor de Cristo consiste em restaurar e fortalecer os laços familiares. Cada pessoa se torna uma demonstração viva do Evangelho, um verdadeiro outdoor ambulante. Afinal, é em casa que revelamos quem realmente somos.

É claro que lidar com pessoas difíceis exige grande esforço. Ainda assim, devemos olhar para o potencial de cada uma. Precisamos enxergar suas qualidades e aquilo que poderão se tornar em Cristo, sem permitir que os problemas sejam o único foco. Deus conhece nossas limitações. Ele trabalha com pessoas imperfeitas e transforma vidas. Como diz uma conhecida expressão: Deus não escolhe os capacitados; Ele capacita os escolhidos.

O chamado para testemunhar, portanto, não exige uma história extraordinária. Exige uma experiência real com Cristo. Quem conheceu sua graça tem algo para contar. Quem recebeu perdão pode falar sobre perdão. Quem encontrou misericórdia pode oferecer misericórdia. Quem experimentou o amor de Deus pode compartilhar esse amor. Ser testemunha é, acima de tudo, contar aos outros aquilo que Cristo fez em nossa vida.

(Texto baseado na Lição da Escola Sabatina do terceiro trimestre de 2020: "Fazendo amigos para Deus – A alegria de participar de sua missão", CPB).


15 julho 2020

Sociedade fabiana

Fábio Máximo (Quintus Fabius Maximus Verrucosus – 275 – 203 a.C.) foi cônsul romano por cinco vezes quando dois cônsules compartilhavam a administração do Estado e duas vezes ditador no período da República entre os anos 233 e 209 a.C. Ficou conhecido por sua estratégia prolongada de guerra contra Aníbal, de Cartago, especialmente na segunda guerra púnica.

Em referência ao método de guerra do cônsul romano, foi criada em Londres no dia 4 de janeiro de 1884 a Sociedade Fabiana. Trata-se de um movimento político socialista que entendia a tomada do poder pelos trabalhadores de forma gradual, infiltrando-se nas instituições, propondo dominação do pensamento coletivo como estratégia diferente dos marxistas que queriam o poder de forma revolucionária, assim como aconteceu na Rússia, China e outros países.

Inspirados na tática de fazer guerra de Fábio Máximo, diversos filósofos, cientistas políticos, economistas, físicos, dramaturgos como H. G. Wells, Emmeline Pankhurst, Leonard Woolf, George Bernard Shaw, Annie Wood Besant, Bertrand Arthur William Russell, Salama Moussa, Harold Laski, Edward Carpenter, Oliver Joseph Lodge, Richard Henry Tawney, Jawaharlal Nehru, Georg Douglas Howard Cole dentre outros, fundaram o Partido Trabalhista em 1906 no Reino Unido, e alguns desses nomes foram expoentes do movimento socialista fabiano ao longo do século XX.

O ardil socialismo fabiano de influência cultural foi explicado por Maria Antonieta Macciochi, feminista italiana dos anos 70, em seu livro A favor de Gramsci, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p.151: “Esse sistema ideológico envolve o cidadão por todos os lados, integra-o desde a infância no universo escolar e mais tarde no da igreja, do exército, da cultura, das diversões, e inclusive do sindicato, e assim até a morte, sem a menor trégua; essa prisão de mil janelas simboliza o reino de uma hegemonia, cuja força reside menos na coerção do que no fato de que suas grades são tanto mais eficazes quanto menos visíveis se tornam.” Sim, grades tão eficazes quanto menos visíveis forem. No Brasil, ideias associadas a essa corrente impregnou como nódoa no tecido social, que levará anos para limpar a mancha nefasta nas instituições públicas, universidades, sindicatos, igrejas, partidos políticos, escolas primárias, dentre outras organizações sociais.

A agenda socialista fabiana está mais forte hoje do que em períodos anteriores. O mote socialista deixou de ser a luta de classes ou o que se chama de capitalismo selvagem para erguer a bandeira da ecologia. O discurso ecológico é simpático, unificador e encontra apoio em todas as classes sociais e religiões. Pascal Bernardin, jornalista e engenheiro francês, denuncia no livro ‘O Império Ecológico ou a subversão da ecologia pelo globalismo’ (Vide Editorial, páginas de 10 a 12), que tem crescido um discurso ecológico totalitário, mascarado, que monopoliza a mídia. O escritor fala de uma ideologia unificadora das religiões e de um governo mundial.

O Papa Francisco atua como grande defensor do “ecumenismo ecológico”. Nos últimos anos, o líder religioso tem se dedicado, basicamente a dois temas: Ecologia e ecumenismo. Na verdade, propõe a união das religiões para cuidar do planeta. Exemplo disso é a chamada “economia de Francisco” revelada no Sínodo da Amazônia e na Carta Encíclica Laudato si. No documento papal, o líder católico defende o domingo como dia de descanso para a humanidade cuidar do planeta, da família e dia especial de culto religioso.

O Instituto Humanista Unisinos, entidade Católica Jesuíta, publicou no site ihu.unissinos.br no dia 20 de abril de 2020 artigo intitulado “A comunhão com nossa irmã-mãe terra vai ter que ressuscitar após esta pandemia” (pandemia de covid-19 de 2020). Num discurso religioso diz: “Como Noé, hoje somos chamados a assumir uma opção essencial para o cuidado da casa comum…” O artigo continua dizendo que esta sociedade de consumo, desperdício e desigualdades caminha para o fim.

No dia 12 de março de 2018, o site vaticannews.va publicou a notícia: “Hebreus, cristãos e muçulmanos juntos para salvar o planeta”, referindo-se ao Congresso Notre Dame de Jerusalém cujo objetivo era apresentar a Carta Laudato si. No Congresso, destacaram-se trechos da Carta para enfatizar que a Terra “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável”. Obviamente, a ação humana está poluindo rios e o ar, desmatando, alterando fauna e flora.

O discurso ecológico ganhou voz no meio evangélico por seguir a tendência da moda. E parece que ninguém quer ficar de fora da onda. No programa ‘Vejam só’ da RIT TV exibido no dia 10 de janeiro de 2020, o entrevistado Reverendo Ageu Cirilo de Magalhães Júnior, diretor do Seminário Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição, defende a ideia de que a pandemia de COVID-19 é a “mão de Deus sobre a terra”. Na mesma linha de pensamento de salvar o planeta, o teólogo exorta que devemos nos aproximar mais de Deus, especialmente dedicando o domingo como dia para cuidar das questões religiosas, porque, segundo suas palavras, o dia de domingo é o “mandamento esquecido”. Católicos e diversas correntes de protestantes estão mais próximos do que nunca. Além do cuidado com a "casa comum", dois pontos doutrinários importantes são compartilhados: o domingo, como dia de descanso, e a crença na imortalidade da alma.

O ex-frei Leonardo Boff, outrora silenciado pelo Papa antissocialista João Paulo II, encontrou apoio no Papa socialista Francisco. O Frei publicou texto com o título “A transição ecológica para uma sociedade biocentrada”, no site franciscanos.org.br, em 23/06/2020, no qual afirma que o coronavírus, arma letal de ‘Gaia’, “…expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.” E acrescenta que “a ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecológica (sic).”

Aqui e acolá poucas vozes críticas soam no meio católico como Dom José Luis Azcona Hermoso, Bispo Católico Emérito da Prelazia do Marajó (PA), que faz crítica ao Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia por fugir do propósito de um sínodo ao deixar de fazer menção a Cristo crucificado e ressuscitado, segundo suas palavras em homilia, para um discurso político, e por elevar o indígena da Amazônia à perfeição, mesmo sendo humano e pecador como todos (YouTube, Apostolado Petrino, Homilia de Dom Azcona, em 18/10/2019).

De fato, a quarentena no período da pandemia de COVID-19 no primeiro semestre de 2020 favoreceu mudanças pontuais que foram observadas em rios que ficaram mais limpos, além de diminuição de lançamento de dióxido de carbono na atmosfera em cidades muito populosas. Esses bons exemplos de restauração da natureza unem religiosos de todo o mundo, ateus e socialista marxistas ou fabianos sob a mesma bandeira e liderança do Papa Francisco.

Vem ganhando força o discurso de parar tudo aos domingos para que a Terra possa descansar. As catástrofes naturais e as pandemias de ebola, covid-19, H1N1, Zica Vírus, Chicungunha, Gripe Suína, Gripe Aviária, SARS e outras doenças podem favorecer o surgimento de governos autoritários com discurso de proteção da vida com a finalidade de controlar a população e os meios de comunicação. Em períodos de medo e insegurança, líderes políticos podem ampliar mecanismos de controle social, impor normas de comportamento, dentre elas o descanso no domingo para cuidar do planeta, da família e para celebração religiosa. Ocorre que a liberdade tem o mesmo valor que a vida. É inadmissível perder a liberdade para proteger a vida.

Os livros históricos registram que o primeiro dia da semana era venerado pelos romanos como dia de adoração ao sol. No dia 7 de março de 321 d. C., o imperador Constantino promulgou decreto fazendo do domingo um dia de festividade pública: “Que no venerável dia do sol os magistrados e as pessoas residentes nas cidades descansem, e que todas as oficinas estejam fechadas. No campo ainda que as pessoas ocupadas na agricultura possam livremente continuar seus afazeres pois pode acontecer que qualquer outro dia não seja apto para a plantação de vinhas ou de sementes” (Christian Classics Ethereal Library, Canon 29 of Council of Laodicea). Esse foi o passo mais importante para o esquecimento e substituição do sábado da Lei de Deus pelo domingo. É oportuno dizer que está escrito no texto do quarto mandamento do decálogo de Deus “lembra-te do dia de sábado para o santificar” (Êxodo 20:8-11). Deus sabia que a humanidade iria esquecê-lo, por isso começou sua redação com a palavra “lembra-te”.

As condições são favoráveis. O discurso está pronto. Só falta implementação do domingo como dia de guarda/descanso. A Constituição Federal brasileira assegura no artigo 7º, inciso XV, que são direitos dos trabalhadores “repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos”. No catecismo, o sábado da Lei de Deus foi mudado pelo domingo por determinação da Igreja Católica em lembrança da ressurreição de Jesus no primeiro dia da semana. Na Carta Encíclica Dies Domini do Papa João Paulo II, o ‘Pontífice explica com clareza porque, por exemplo, a Igreja Católica Romana substituiu o sábado pelo domingo. Convenientemente, os principais movimentos históricos protestantes foram na mesma linha dos Católicos. Esqueceram o que era para ser lembrado. O livro de Êxodo (20:8-11) expressa de forma cristalina os motivos da obediência ao preceito sabático. Somos indesculpáveis quando buscamos razão para a desobediência da ordem de Deus alegando abolição do decálogo pela morte de Cristo na cruz. O curioso é que o alvo da abolição só alcançou o quarto mandamento. Todos os nove mandamentos do decálogo são aceitáveis, menos o sábado, segundo dizem aqueles que advogam a tese da conveniência’ (extraído do texto O Espírito Santo e o selo de Deus no livro do Apocalipse, publicado neste blog em 22/06/2020).

O Papa João Paulo II depois de fazer uma explanação das razões e importância do sábado na lei mosaica, defende a tese de que a morte e ressurreição de Cristo proporcionou um descanso e recriação da humanidade tal qual o sábado faz referência à criação inicial do relato de Gênesis 1. A seguir, destacam-se trechos do documento “O dia do Senhor – Carta Apostólica Dies Domini, do Sumo Pontífice João Paulo II ao episcopado, ao clero e aos fiéis da Igreja Católica sobre a santificação do domingo”. No capítulo de título “O Shabbat: o repouso jubiloso do Criador", o Papa João Paulo II, de forma poética, dá as razões do porquê o sábado deve ser lembrado: “O repouso divino do sétimo dia não alude a um Deus inactivo (sic), mas sublinha a plenitude do que fora realizado, como que a exprimir a paragem de Deus diante da obra ‘muito boa’ (Gn 1,31) saída das mãos, para lançar sobre ela um olhar repleto de jubilosa complacência: um olhar ‘contemplativo’, que não visa novas realizações, mas sobretudo apreciar a beleza do quanto foi feito; um olhar lançado sobre todas as coisas, mas especialmente sobre o homem, ponto culminante da criação. É um olhar no qual já se pode, de certa forma, intuir a dinâmica ‘esponsal’ da relação que Deus quer estabelecer com a criatura feita à sua imagem, chamando-a a comprometer num pacto de amor.” Diz o pontífice que o sábado é uma aliança de amor entre Deus e o homem como num casamento, é um ato tanto da criação, quanto da libertação de “Israel da escravidão do Egito (cf. Dt 5,12-15)”.

No subtítulo “Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o (Gn 2,3)”, a Carta expressa: “O preceito do sábado… não está situado junto das normativas puramente culturais, como é o caso de tantos outros preceitos, mas dentro do Decálogo, as ‘dez palavras’ que delineiam os próprios pilares da vida moral, inscrita universalmente no coração do homem. Concebendo este mandamento no horizonte das estruturas fundamentais da ética, Israel e, depois, a Igreja mostram que não o consideram uma simples norma de disciplina religiosa comunitária, mas uma expressão qualificante e imprescindível da relação com Deus, anunciada e proposta pela revelação bíblica. Se possui também uma convergência natural com a necessidade humana de repouso é, contudo, à fé que é preciso fazer apelo para captar o seu sentido profundo, evitando o risco de banalizá-lo e traí-lo. Portanto, o dia do repouso é tal primariamente porque é o dia ‘abençoado’ por Deus e por Ele ‘santificado’, isto é, separado dos demais dias para ser, de entre todos, o ‘dia do Senhor’”.

Em outro subtítulo da Encíclica “Recordar para Santificar”, acrescenta: “O mandamento do Decálogo, pelo qual Deus impõe a observância do sábado, tem, no livro do êxodo, uma formulação característica: ‘Recorda-te do dia de sábado, para o santificares’ (20,8). E mais adiante, o texto inspirado dá a razão disso mesmo, apelando-se à obra de Deus: ‘Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto contém, e descansou no sétimo; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou’ (v. 11). Antes de impor qualquer coisa a ser praticada, o mandamento indica algo a recordar. Convida a avivar a memória daquela grande e fundamental obra de Deus que é a criação. É uma memória que deve assumir toda a vida religiosa do homem, para depois confluir no dia em que ele é chamado a repousar. O repouso assume, assim, um típico valor sagrado: o fiel é convidado a repousar não só como Deus repousou, mas a repousar no Senhor, devolvendo-Lhe toda a criação, no louvor, na acção (sic) de graças, na intimidade filial e na amizade esponsal.”

Logo depois do discurso como se fosse uma defesa do repouso sabático, a Carta Encíclica no subtítulo “Passagem do sábado ao domingo” expressa a causa da mudança ao dizer que “Cristo constitui a revelação plena do mistério das origens, o cume da história da salvação e a antecipação do cumprimento escatológico do mundo. Aquilo que Deus realizou na criação e o que fez pelo seu povo no êxodo, encontrou na morte e ressurreição de Cristo o seu cumprimento, embora este tenha a sua expressão definitiva apenas na parusia, com a vinda gloriosa de Cristo.” Mais adiante cita frase de S. Gregório Magno: “Nós consideramos verdadeiro sábado a pessoa de nosso redentor, nosso Senhor Jesus Cristo”. Por fim, conclui sobre a mudança do sábado para o domingo nestas palavras: “À luz deste mistério, o sentido do preceito vetero testamentário do dia do Senhor é recuperado, integrado e plenamente revelado na glória que brilha na face de Cristo Ressuscitado (cf. 2 Cor. 4,6). Do ‘sábado’ passa-se ao ‘primeiro dia depois do sábado’, do sétimo passa-se ao primeiro dia: o dies Domini torna-se o dies Christi!” Portanto, para os Católicos Romanos a ressurreição de Jesus Cristo é a razão da mudança do sábado para o domingo como dia santo, conforme defendeu o Papa João Paulo II na Carta Encíclica Dies Domini.

Quando Jesus Cristo esteve na Terra, encontrou 'uma igreja' pregando tradições humanas. A leitura do texto profético era secundária. Hoje estamos vivendo na mesma situação: na defesa das tradições humanas. Disse Jesus: “A adoração deste povo é inútil, pois eles ensinam leis humanas como se fossem meus mandamentos” (Mateus 15:9).

A preocupação com o planeta é válida. Contudo, pessoas enfrentam a fome, outras são refugiadas de guerras insanas, há trabalho escravo e exploração de crianças. Queremos cuidar do planeta e esquecemos de cuidar das pessoas. Uma atitude não pode excluir a outra. As pessoas precisam de solidariedade, amor, respeito, alimento. Se deixar o planeta sozinho sem intervenção negativa do homem ele se restaura em poucas centenas de anos.

O discurso ecológico foi facilmente comprado por pessoas que não desconfiaram que ele vem de ordem superior do mundo dos espíritos. Forças espirituais estão dando as cartas. Como escreveu o Apóstolo São Paulo: “Pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes” (Efésios 6:12, NVI). Ellen White, no livro Mensagens Escolhidas, volume 2, página 392, CPB, descreve que “haverá um laço de união universal, uma grande harmonia, uma confederação de forças satânicas”. Igualmente, no livro O Grande Conflito, da mesma autora e editora, escrito no século XIX, página 589, acrescenta: “Satanás também atua por meio dos desastres naturais… estudou os segredos da natureza e emprega todo o seu poder para dirigir os elementos tanto quanto Deus o permite … Trará calamidade sobre outros e levará as pessoas a crer que é Deus quem os aflige.”

Muito em breve mega capitalistas, socialistas marxistas ou fabianos, religiosos e ateus estarão unidos num mesmo propósito: salvar o planeta. Grandes nomes da humanidade defenderão o discurso ecológico como elemento pacificador e de união. Mas o propósito é outro. Todos eles querem o poder pelo poder. Ninguém estará preocupado com o bem-estar do ser humano, apesar de ser essa a aparência da pregação. O príncipe das trevas usará sua tática eficaz: a ganância. Somos expectadores de profecias antigas escritas na bíblia. A imposição do domingo como dia de guarda é precisamente um grande sinal da volta de Jesus. Será um momento de grande júbilo para os estudantes das profecias bíblicas que estiverem vivos naquele tempo. Vai ser difícil para os guardadores do sábado do sétimo dia. Creio que eles dirão: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29) “Portanto, quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e ergam a cabeça, pois a sua salvação estará próxima”, disse Jesus (Lucas 21:28).


12 julho 2020

Fake News

Considere a possibilidade de existir o fogo do inferno, conforme o pensamento cristão. Se dentro de uma pessoa existisse algo indestrutível, incapaz de ser consumido por esse fogo, o que sobraria dela? Vamos chamar isso de essência ou natureza. Qual essência permaneceria após a morte física? Qual é a identidade de cada pessoa?

A Lei 12.965/14, chamada de Marco Civil da Internet, proíbe o compartilhamento de conteúdo falso e protege a intimidade alheia. A Constituição garante a liberdade de manifestação do pensamento, mas esse direito não autoriza invadir a privacidade nem atacar a honra alheia. Somos livres para falar a verdade, mas a liberdade de expressão não serve para acobertar mentiras. As mentiras acompanham a humanidade desde a origem. Ambas caminham juntas, e distinguimos uma por causa da outra.

O desafio de qualquer lei regulatória consiste em resguardar a liberdade de expressão e de pensamento, além de proibir a mentira nas redes sociais. Isso sem falar nos oportunistas que enxergam no debate uma brecha para restringir direitos fundamentais sob o pretexto de proteção. Olhos abertos: sobram especialistas e aproveitadores neste mundo!

Os tempos antigos também produziram fake news. Alguns temas repetem-se há séculos até adquirirem contornos de verdade. Entre esses tópicos está a noção distorcida de céu e de inferno. Jesus contou uma parábola impressionante — felizmente, tratava-se apenas de uma parábola, recurso narrativo usado para ilustrar uma mensagem. Vejamos o enredo: dois homens viviam neste planeta. Um era morador de rua, coberto de feridas. O outro, um banqueiro bem-sucedido (profissão que desperta admiração pelo status financeiro). Ambos morreram. O sábio Salomão entrou em pânico ao descobrir que os ricos também morrem. De fato, eles morrem, embora os sepultamentos suntuosos pareçam sugerir que possuem um passaporte especial. O miserável foi para um lugar bom; feliz, nem lembrava das agruras passadas. O banqueiro, acostumado à antecipação de recebíveis, ignorou o saldo negativo no fechamento das contas finais e foi parar no fogo do inferno.

O cenário exibia o céu e o inferno separados apenas por uma rua. O diálogo fluía entre os vizinhos. O morador da zona mais quente gritou para o habitante do polo norte: “Tem água aí?”. O homem do lado fresco hesitou antes de ajudar e aguardou o pedido de socorro: “Molha, pelo menos, o dedo e põe na minha língua”. Não convém questionar a distância geográfica entre o céu e o inferno naquela parábola; tratava-se, talvez, de uma rua estreita nos moldes da antiga Jerusalém. A resposta foi seca: “Não posso”. Surge então o questionamento: um habitante do céu jamais agiria com tanta mesquinhez a ponto de negar um copo de água! Pois é, o banqueiro queimava eternamente. Resta ponderar o custo-benefício da vida: setenta anos de luxo em troca de bilhões de anos de sofrimento infindável. Que justiça é essa? Que deus engana o ser humano com poucos anos de prazer em troca de uma eternidade de tormento? Um deus assim assemelhar-se-ia a um torturador, ou há uma grave distorção na interpretação do texto?

A Bíblia ensina que os mortos estão mortos (Eclesiastes 9:5). Encontram-se em sono profundo, apagados e desligados da tomada — como um celular sem carga ou um bêbado exausto no fim da festa. Ninguém deseja a morte para comprovar a realidade do paraíso celestial, e a Bíblia não suaviza o tema: a morte é implacável. Morreu, acabou. Contudo, a Escritura apresenta a solução definitiva em Jesus Cristo. Ele afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). O termo ressurreição possui um único sentido: sair da cova.

O Credo da Igreja Católica Romana proclama: “Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor... Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus... donde há de vir a julgar os vivos e os mortos... Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. O Credo menciona explicitamente a ressurreição. Quem já habita o céu não precisa ressuscitar. Nenhum pobre, por mais santo que seja, ascende diretamente ao céu após a morte; nenhum banqueiro pecador vai direto ao inferno sem julgamento; tampouco existe escala no purgatório para ajustar contas. Dar uma canseira para os mais ou menos pecadores.

A teoria do purgatório assemelha-se a uma fake news, uma narrativa falsa com aparência de verdade criada para desinformar, anestesiar a consciência e abrandar a rigidez do tema. Se o banqueiro e o morador de rua fossem lançados nas chamas, a natureza de ambos revelaria a mesma essência.
O apóstolo Paulo sugeriu o teste do espelho para confirmar essa realidade. Para ele, a lei de Deus atua como um espelho que reflete todas as manchas da personalidade. Paulo almejava ser semelhante a Cristo em tudo, a ponto de declarar: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). O velho homem estava morto.

Contudo, antes de alcançar essa estatura espiritual, Paulo enfrentou duras batalhas. Na Epístola aos Romanos (7:18-24), ele relata um conflito íntimo: duas naturezas travavam guerra dentro dele. A natureza humana, com suas tendências corrompidas, enfrentava a natureza divina enxertada pelo Espírito Santo. Uma vida íntegra e verdadeira exige a atuação transformadora do Espírito de Deus.
O ser humano, por si só, é marcado pela falsidade. O melhor antídoto contra as fake news da personalidade humana reside nos Dez Mandamentos de Deus. É um remédio infalível. Enquanto a humanidade julgar-se invencível, apenas a morte causará temor. A parábola do rico e de Lázaro desperta o senso de sobriedade em consciências cauterizadas pelo pecado.

O que esperar de uma sociedade que necessita de leis estatais para obrigar as pessoas a falar a verdade? Trata-se de uma sociedade perdida, formada por seres humanos mortos em seus delitos. A parábola contada por Jesus pretendia ensinar que a leitura da Bíblia é o guia supremo para moldar uma personalidade inspirada na natureza divina. O que resta do ser humano após a morte? O caráter edificado sobre o fundamento da Rocha, o qual o fogo do inferno jamais destruirá. “Ouçam o que Moisés escreveu”, disse Jesus. Ele concluiu que ninguém precisa de uma ressurreição espetacular para crer na mensagem profética. O ponto nevrálgico da parábola resume-se a uma ordem clara: leia a Bíblia.

09 julho 2020

Reforma tributária

O capítulo 12 do primeiro livro de Reis equivale a um vazamento da reunião ministerial do rei Roboão, ocorrida por volta de 945 a.C. Naquela época, o país desfrutava de um bom momento de arrecadação e superávit na balança comercial. Com a morte do rei Salomão e a transição de poder para seu filho e sucessor, Roboão, o povo enxergou a oportunidade de exigir uma reforma tributária. A prosperidade proclamada apoiava-se sobre uma carga tributária sufocante.

 A questão fiscal sempre motivou revoltas populares, guerras, deposição de monarcas e conflitos ao longo da história da humanidade. No período de Roboão, o peso dos impostos tornou-se tão grave que a oposição, liderada por Jeroboão, exigiu que o palácio respondesse ao clamor popular. O rei recebeu uma comissão chefiada por um ex-funcionário e desafeto de seu pai. É provável que o diálogo tenha começado com ânimo exaltado.

 A exigência resumia-se a um pedido claro: aliviar a tributação. Roboão pediu três dias para responder. Durante a reunião ministerial, ouviu seus assessores, avaliou os conselhos e decidiu aumentar os impostos por meio de medida provisória. Naquela época, a figura real concentrava as funções executiva, legislativa e judiciária, o que facilitava a edição de decretos fiscais. O princípio da legalidade resolvia-se com facilidade.

 O resultado foi inevitável: estourou uma revolta popular liderada por Jeroboão, que acabara de retornar do exílio no Egito. Esses exilados costumam retornar com ânimo inflamado e assumir o poder com facilidade. O país dividiu-se. Dez das doze tribos apoiaram a revolta, enquanto apenas duas permaneceram fiéis ao rei.

 Nos anos seguintes, a falta de recursos para manter um exército forte e as invasões sucessivas de nações vizinhas enfraqueceram a unidade nacional. A partir de 700 a.C., o país perdeu a estabilidade e só se recuperou no início do século XX. Foram vinte e sete séculos de história desperdiçados por causa de uma decisão vaidosa e arrogante. Dar ouvido ao conselho errado gera consequências trágicas. Se Roboão tivesse lido o conselho de seu pai em Provérbios 13:10, a história teria outro desfecho: “A arrogância só produz contendas, mas a sabedoria está com aqueles que buscam conselho” com as pessoas certas.

 O tema da reforma tributária permanece controverso e gera uma disputa ferrenha. Quem governa deseja reformar para ampliar a arrecadação; no mínimo, recusa-se a perder receitas. No Brasil, a União e os estados jamais chegam a um consenso. Os governos estaduais disputam se a tributação incidirá na origem ou no destino, enquanto os setores produtivos travam batalhas por incentivos fiscais. Por outro lado, o cidadão, o produtor e o comerciante clamam pela redução de impostos, taxas e contribuições. A essa complexidade somam-se os interesses políticos dos eleitos, a conjuntura econômica e a pressão de grupos de influência. Qualquer reforma fiscal voltada à dinâmica da economia exige grande esforço.

 Embora a simplificação e a redução da carga tributária provoquem queda na arrecadação a curto prazo, a medida favorece o crescimento do país a longo prazo. Desonerar a folha de pagamento, por exemplo, incentiva a criação de empregos, estimula o consumo e faz o dinheiro circular, aquecendo a economia.

 Os impostos representam parte do esforço produtivo do cidadão transferida para a administração do governo. Uma reforma tributária justa precisa nascer de um pacto federativo que inclua a participação de quem paga a conta. Infelizmente, o assunto decide-se em gabinetes, sem consulta popular. Assim, torna-se fácil encomendar o jantar e mandar a conta para o vizinho.

 Atualmente, o cidadão desconhece o montante exato pago em tributos e o destino dos recursos. Somente no consumo incidem cinco tributos principais: ICMS, ISS, IPI, COFINS e PIS/PASEP. Enquanto os governantes disputam poder e controle financeiro, o contribuinte aguarda passivamente uma solução que pode se arrastar por décadas. Até lá, resta suportar o abuso do poder de tributar.

03 julho 2020

Fidelidade e eficiência na administração


Dentre os dons concedidos por Deus ao ser humano, destaca-se a riqueza material. Ser rico pode constituir uma bênção do céu, mas tal dádiva exige boa administração. As riquezas materiais vindas do Pai, sejam poucas ou muitas, devem ser geridas com fidelidade e eficiência. Fiel é quem respeita o pacto e demonstra lealdade. Eficiente é quem produz mais com menos recursos. A Bíblia descreve José como um excelente modelo de administrador. O que aprendemos com as qualidades administrativas de José do Egito?

O apóstolo Pedro incentiva em sua primeira carta (4:10): “Sejam bons administradores dos diferentes dons que receberam de Deus”. A escritora Ellen White (Testemunhos, vol. 3, cap. 33) observa: “Todo homem é um mordomo de Deus. A cada um confiou o Mestre Seus recursos... Disse Cristo: ‘Negociai até que Eu venha’ (Lucas 19:13). ‘Presta contas da tua mordomia’ (Lucas 16:2)”. A palavra mordomo significa administrador de uma casa.

Ellen White (Testemunhos Seletos, vol. 2, cap. 78) acrescenta: “Os bens do Senhor devem ser manejados com fidelidade. O Senhor tem confiado aos homens vida, saúde e as faculdades de raciocínio... Muitos estão gastando o dinheiro de seu Senhor em assim chamados prazeres dissolutos... deixando de levar a cruz de Jesus”.

A Fidelidade como Base
Analisemos as qualidades de uma boa administração sob a perspectiva de José. A primeira característica essencial é a fidelidade: o compromisso irrevogável de cumprir acordos, zelar pela palavra empenhada e fazer o que é correto segundo os padrões bíblicos, mesmo contra a correnteza.

Até os dezessete anos, José levava uma vida tranquila e privilegiada em sua família. De repente, tudo mudou. Vendido como escravo pelos irmãos, foi parar no Egito, na casa de um oficial de alta patente. Mesmo em situação desfavorável, manteve os princípios aprendidos no lar. A fidelidade testa-se nos momentos de crise: seja obedecendo aos mandamentos de Deus quando a maioria os despreza, devolvendo o dízimo apesar do salário apertado ou preservando a integridade diante de propostas tentadoras.

O capítulo 39, verso 2, de Gênesis relata que “o Senhor estava com José”. O jovem, contudo, não enxergava a mão divina de imediato. Só compreendemos os propósitos de Deus ao contemplar o desfecho da história. Sem palestras motivacionais de um coach nem garantias de sucesso durante a viagem como prisioneiro, José entendeu que a fidelidade não se compra; ela exige decisão e postura.

O cristão devolve o dízimo como reconhecimento da soberania do Criador, porque sabe que é apenas um mordomo. A pessoa fiel a Deus nos dízimos não busca barganhar favores. A teologia da prosperidade reduz a graça divina a um balcão de negócios.

A matemática financeira exige cautela: após separar os 10% para a obra de Deus, restam 90% para o sustento familiar. Gerir menos recursos requer sabedoria. Gênesis 39:5 aponta que a bênção divina alcançava tudo ao redor de José. ​Perceber a providência divina na saúde, no trabalho e na preservação da vida torna o dízimo um ato natural de reconhecimento.

Os 90% restantes pertencem a Deus, mas Ele permite administrá-los com prioridades orientadas pela obediência. É incompatível com a mordomia cristã gastar recursos divinos com vícios, alimentos inadequados ou conteúdos culturais nocivos. Como afirma Ellen White (Testemunhos, vol. 9, cap. 30): “Cada cristão é um mordomo de Deus... Requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel”.

Eficiência e Gestão Prática
A segunda qualidade de uma boa administração é a eficiência. Jesus ilustrou essa verdade na parábola dos talentos, distribuídos conforme a capacidade de cada servo (Mateus 25). A regra básica determina que grandes empreendimentos exigem excelência nas pequenas tarefas cotidianas. O apóstolo Paulo exorta Timóteo (1Tm 3:12) a gerir bem a própria casa antes de assumir responsabilidades maiores.

Na adolescência, José já prestava contas ao pai sobre as atividades no campo (Gênesis 37:14). Ele planejava, estabelecia prioridades e não compactuava com o erro, ao ponto de ser considerado indesejável pelos irmãos quando erravam. Além disso, destacava-se na gestão de conflitos por meio do diálogo.

Nem sempre é fácil administrar o orçamento doméstico. Os interesses, por vezes, são antagônicos entre os membros do núcleo familiar. O diálogo permanece como a melhor ferramenta para resolver impasses. No livro Esperança para a Família (Willie e Elaine Oliver, CPB, 2018, p. 44), tratando da intimidade conjugal, destaca-se que “isso é muito mais que nudez física. Em realidade, diz respeito a um relacionamento em que há total transparência emocional, financeira, intelectual e espiritual”. A intimidade financeira é pré-requisito para o sucesso no orçamento doméstico. Esse quesito é desafiador para quem administra poucos recursos.

Superando a Adversidade
Administrar com retidão atrai oposição. Vendido pelos irmãos, José cresceu profissionalmente no Egito graças à sua operosidade. Como destaca a escritora Ellen White (Patriarcas e Profetas, cap. 20): “A assinalada prosperidade que acompanhava todas as coisas postas aos cuidados de José não era resultado de um milagre direto; mas sim a sua operosidade, zelo e energia eram coroados pela bênção divina. José atribuía seu êxito ao favor de Deus, e mesmo seu senhor idólatra aceitava isso como o segredo de sua prosperidade sem-par. Sem um esforço perseverante e bem dirigido jamais poderia, entretanto, haver conseguido o êxito. Deus era glorificado pela fidelidade de Seu servo”.

Mesmo vivendo de forma íntegra, José foi lançado injustamente na prisão, onde o sistema jurídico da época ignorava garantias fundamentais como a ampla defesa e o contraditório. Sua capacidade de superação exigiu profunda paciência. Na cela, ele cultivou flexibilidade, cuidou dos companheiros de cárcere e demonstrou genuína preocupação com o próximo. Quando o copeiro-chefe esqueceu de interceder por ele, José evitou o amargor da vingança. Valores sólidos sustentam o caráter nos momentos de injustiça.

Uma boa administração exige resiliência diante das adversidades. A trajetória de José exemplifica essa jornada: ele superou a oposição hostil dos irmãos, resistiu à tentação no ambiente de trabalho e suportou dois anos de cárcere indevido.

Obstáculos e falta de reconhecimento testam o caráter humano.
 Quando a situação se inverte e o oprimido alcança o poder, a verdadeira personalidade se revela. A vingança nunca constitui uma resposta aceitável. O exercício da autoridade ou da riqueza exige integridade, provando que o poder deve servir à justiça e não ao rancor. Vi, certa vez, o pronunciamento do Senador Jefferson Péres sobre a capacidade do poder de corromper os seres humanos. A Senadora Heloísa Helena pediu a palavra para dizer que o poder revela o verdadeiro caráter das pessoas (5 de dezembro de 2005). No caso de José, o poder revelou quem de fato ele era.

José era um sonhador. Todo vencedor cultiva grandes visões. Ao compartilhar suas aspirações com os familiares, ele desenvolveu a capacidade de pensar, interagir e comunicar-se, embora nem sempre fosse compreendido por pais e irmãos. Os pais devem incentivar os sonhos dos filhos, pois o estímulo pavimenta o caminho das grandes conquistas. Afinal, o sucesso de José como administrador fundamentou-se em três pilares: gerir com excelência as pequenas tarefas cotidianas, solucionar conflitos de forma pacífica e acreditar em seus ideais. Frutifique onde você estiver plantado e execute com perfeição tudo o que vier às suas mãos.

De Administrador Júnior a Sênior
Quando a vida exige uma guinada radical, Deus pode agir por meio de intervenções extraordinárias. Foi assim quando o Criador concedeu um sonho a Faraó, unindo dois visionários. Convocado para interpretar a visão do líder máximo da nação, José demonstrou preparo imediato. A sorte revelou-se, na verdade, como o encontro da oportunidade com a qualificação profissional. Além de identificar o problema com rapidez, o jovem estruturou um plano estratégico de curto, médio e longo prazo para catorze anos, provando sua profunda visão administrativa.

Nomeado assessor especial no gabinete presidencial, José confirmou sua competência ao longo dos anos. Ele soube ajustar rotas, reorganizar prazos e rever resultados com agilidade. Essa capacidade de gestão eficiente destacou-se nos momentos de crise, abrangendo desde desequilíbrios econômicos e escassez até períodos de fome e calamidades públicas.

Ellen White (Testemunhos Seletos, vol. 13) acrescenta: “Deus se desgosta com a maneira negligente, frouxa em que muitos dos que professam ser seu povo dirigem seus negócios mundanos. Parecem ter perdido todo o senso de que a propriedade que estão usando pertence a Deus, e lhe devem prestar contas de sua mordomia. Alguns têm os negócios seculares em total confusão”.

O Propósito dos Sonhos
As crianças são naturalmente sonhadoras. Os adultos perdem a capacidade de sonhar no decorrer da vida por causa de sofrimentos, angústias ou doenças. O pecado também extingue essa capacidade. O mais importante consiste em descobrir o sonho de Deus para essa existência. Se o sonho é a salvação, deve-se cultivar a semente plantada pelo Senhor no coração. Acreditar nesse sonho transforma a maneira de pensar e agir. Que sonho você cultiva?

As mudanças exigem adaptações contínuas às novas circunstâncias, pois isso faz parte do processo. Quem viveu da mesma forma nos últimos dez anos apenas repetiu o mesmo ano dez vezes. Quem busca resultados diferentes na administração da vida precisa adotar atitudes novas, sem medo de sonhar e enfrentar obstáculos. Os obstáculos existem para ser vencidos e promovem o aperfeiçoamento. Levantar a cabeça e lutar constitui um imperativo. Evite murmurar ou contar problemas aos outros: parte das pessoas ignora os problemas alheios, enquanto outra parte alegra-se com eles. A pergunta central resume-se a onde se quer chegar e qual preço se está disposto a pagar.

Fidelidade e eficiência formam os princípios fundamentais para o sucesso de uma boa administração. O percurso exige esforço, mas a chegada compensa cada desafio.